O Nascimento de Renata
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A Gincana

Tudo começou no meu último ano de faculdade. Eu estudava odontologia em uma cidade do interior de São Paulo, e como parte dos preparativos para a formatura haveria uma grande gincana entre as turmas formandas das diversas carreiras (odontologia, administração, letras, engenharia, direito e medicina). A gincana seria promovida pela direção da faculdade, apoiada pela prefeitura e alguns comerciantes da cidade. A turma vencedora receberia como prêmio uma substancial ajuda para seu baile de formatura.

Excitados pela disputa, formamos uma grande equipe para concorrer pela odontologia. A gincana transcorreria durante um final de semana inteiro, iniciando-se em um sábado pela manhã. Neste dia concentramos nossa equipe no campo de futebol da faculdade, local do início da disputa, a fim de ouvir as regras finais e divulgação das tarefas. Seria uma disputa dura: raids off-road, pista de obstáculos, caça ao tesouro, entre outras provas. Tudo entremeado pela solicitação de objetos inusitados no decorrer da gincana e cuja apresentação em tempo hábil garantiria pontos às equipes. Haveria ainda uma tarefa surpresa; valeria uma grande quantidade de pontos, e devido ao seu elevado grau de dificuldade e tempo de preparação seria divulgada no início da gincana. Quando foi anunciada a tal tarefa, surpresa total: haveria um concurso de Miss Gincana, com todas as etapas habituais de um concurso de Misses, exceto que as Misses deveriam ser estudantes do sexo masculino e membros das equipes inscritas. Passado o espanto geral, minha equipe se reuniu para os preparativos finais antes do início da disputa. Foi quando escolhemos nosso(a) representante no concurso de Misses. Eu deveria ter previsto. Medindo apenas 1,70m, franzino e dono de um rosto de traços finos, quase delicados, fui escolhido para representar a "Miss Odontologia". E sem direito a protesto. A partir deste momento, a gincana para mim se restringiria a treinos e aulas de como agir como uma Miss. Do sábado pela manhã até a tarde de domingo, hora do concurso, eu seria adestrado nas artes da feminilidade por duas amigas da faculdade que se voluntariaram para minhas treinadoras. Duas das maiores gatas da faculdade, Roberta e Patrícia eram primas, filhas de fazendeiros goianos, e ao contrário da maioria dos estudantes de fora da cidade (que moravam em repúblicas), ambas moravam com sua governanta em uma ótima cobertura na cidade, local escolhido para o meu treino.

- Quando nós terminarmos com você, vai desejar ter nascido mulher, querida amiga! - me disse Patrícia, rindo. Estas palavras me deram medo...

Criando Renata

Quando chegamos no apartamento de minhas duas amigas fui apresentado a Sra. Dilma, a governanta. Roberta começou então a ler os regulamentos do concurso. Seriam quatro provas:

a) Desfile das Misses representando o mais elegantemente possível suas profissões (equivalente ao traje típico)
b) Concurso de talentos
c) Desfile em traje de banho (maiô)
d) Desfile em traje de noite

Os jurados seriam figuras conhecidas da sociedade local. Foi então que Patrícia iniciou meu treinamento:

- A partir de agora, para reforçar seu treinamento, você será chamada somente pelo nome feminino que escolhermos. Alguma sugestão?

Entrando no clima da gincana, lembrei que se tivesse nascido mulher, meus pais teriam me chamado Renata.

- Gosto de Renata. - disse

- Também gosto. Pois bem, até domingo você será conhecida somente como Renata.

Em seguida, fui encaminhada ao chuveiro onde recebi instruções para tomar um banho e em seguida passar no corpo um creme que me deram. Terminada a tarefa, fui para o quarto onde estavam dispostas em cima da cama diversas peças de roupas femininas. Pude identificar uma blusa bege pouco decotada, uma saia preta curta, um conjunto de calcinha e soutien brancos e rendados, um par de meias de nylon escuras, e ao pé da cama um par de sapatos escarpins na cor preta com um salto bem alto e fino. Pela porta pude ouvir a voz de Roberta mandando-me vestir todos aqueles ítens, que eram seus, e em seguida sair para o corredor. Ela esperava que as peças me servissem, uma vez que éramos mais ou mesmo do mesmo porte, altura e número de sapato (38/39). Optei por vestir primeiro o soutien, que consegui fechar com muita dificuldade apesar das lembranças de como minhas ex-namoradas o faziam. A calcinha foi fácil, serviu perfeitamente em mim. Foi quando vesti as meias que senti aquilo pela primeira vez: o contato da pele com o nylon fez correr pela espinha uma certa eletricidade, e pude sentir um volume aumentando entre minhas pernas. Será que eu estava gostando daquilo? - perguntei a mim mesmo. A blusa e a saia serviram, apesar do caimento não ser lá essas coisas. Por fim os escarpins. Eu já havia calçado sapatos femininos de minha mãe e irmãs escondido em diversas ocasiões, devendo confessar que tenho um grande fetiche por salto alto. Mas aquilo era diferente, eu o faria na frente de outras pessoas, e isto estava sendo bastante excitante. Sentei na cama e calcei o primeiro sapato, que entrou facilmente em meus pés envoltos pela meia. Resolvi calçar o segundo como via as mulheres fazendo, em pé e pisando dentro do sapato. Me apoiei na parede e assim o fiz - foi tão excitante este ato que antes mesmo de dar o primeiro passo, pude sentir meu membro enrijecido e duro como pedra. Sem avisar nada, Roberta e Patrícia nesta hora entraram pelo quarto e ficaram me olhando alguns segundos em silêncio, até Roberta exclamar:

- Ainda falta o que fazer, mas acho que ela vai ficar linda!

- Concordo plenamente - disse Patrícia.

- Acho até que a Renata está gostando de tudo isto... - disse Roberta ao perceber o volume entre minhas pernas.

Em seguida me fizeram caminhar até a sala, fazendo comentários irônicos sobre a relativa facilidade com que eu conseguia caminhar com aqueles sapatos de salto:

- Você deve ter um dom natural para caminhar de saltos, Renata... ou será que costuma usá-los de vez em quando? - indagou Roberta com um irônico sorriso nos lábios.

Preferi não fazer nenhum comentário. Nas próximas duas horas fui ensinada a caminhar, sentar, cruzar as pernas, gesticular e me comportar da forma mais feminina possível. Pouco antes do almoço ouvi a campainha tocar, e logo apareceu Dilma acompanhada de um casal carregando algumas maletas . O homem, cerca de uns 35 anos, era de uma aparência um tanto andrógina, enquanto a mulher, de meia idade, chamava a atenção por sua maquiagem pesada e enormes unhas vermelhas.

- Renata, estes são Júlio e Clara. O Júlio é proprietário de um salão de beleza aqui na cidade, onde costumo ir, e Clara trabalha com ele. Eles irão terminar de lhe transformar na nova Miss Odontologia - disse Patrícia.

Um pequeno salão foi então montado no quarto que eu usara para me vestir. Enquanto Júlio e Clara retiravam o material de suas maletas, fui ordenada a me despir no banheiro e retornar somente de calcinha, vestindo um roupão cor de rosa e calçando tamancos brancos salto 7 que me foram dados por Roberta. O espelho da penteadeira em frente a qual eu sentava foi coberto, e começaram então a trabalhar em mim. Enquanto Júlio testava algumas perucas em minha cabeça, Clara começou a trabalhar em minhas unhas dos pés. Em cerca de duas horas fui também depilada, apesar dos meus inúteis protestos, tive minhas unhas feitas, me foi colocada uma peruca, e por fim maquiada. Me levaram ainda de roupão para frente de um espelho de corpo inteiro e pude ver o resultado final do trabalho. Tomei um choque: a imagem que via no espelho era a de uma bela mulher, em seus cerca de vinte e poucos anos, cabelos castanhos levemente ondulados, pouco abaixo dos ombros. A maquiagem era bastante suave, ressaltando meus olhos, e minha boca desenhada com batom rosa. Em minhas mãos foram coladas longas unhas postiças de porcelana, pintadas de um rosa clarinho e pontas brancas ao estilo francesinha. As unhas dos pés também foram feitas e pintadas de um rosa clarinho. Exceto pelas formas corporais um pouco retas, a ilusão feminina era perfeita!

- Mas ela está linda! - disse Roberta.

- Falta apenas o acerto final. Venha comigo para o quarto Renata, vamos completar sua transformação. - e Júlio me levou pelo braço, eu ainda espantada com a imagem no espelho...

Dentro do quarto Júlio me mostrou e ensinou como se usam alguns enchimentos que, estrategicamente posicionados, me forneceriam as preciosas curvas femininas. Fui informada que eram conhecidos como "pneus". Por fim, um par de próteses mamárias de silicone foi colado em meu tórax. Segundo Júlio, eram próteses para mulheres mastectomizadas que ele comprou nos Estados Unidos para suas atuações (Júlio já fora transformista em São Paulo), cuja cola deveria durar até o final do concurso. Vesti então as roupas que foram separadas para mim: a mesma saia preta de antes, uma blusinha branca lisa, e sandálias de salto anabela/plataforma de cortiça, modelo em moda nesta época, com tiras pretas (uma sobre os dedos do pé e outra em volta do tornozelo com uma pequena fivelinha dourada). Apesar do salto alto e uma pequena plataforma, eram bastante confortáveis e fáceis de andar. Com minhas pernas agora depiladas não usaria meias de nylon, o que me permitia olhar para meus pés e observar minhas unhas pintadas de rosa brilhando na ponta das minhas sandálias. Brincos de pressão, alguns anéis, pulseira e colar e eu estava pronta. Uma nova olhada no espelho me deu a impressão de que poderia atrair os olhares de qualquer homem naquela cidade. Eu estava uma gata! Fiquei excitada com o que via. Júlio então me deu uma espécie de tapa sexo e disse:

- Esqueci de lhe entregar isto. Vou lhe mostrar como vestir assim que sua excitação passar. Vai ajudar a manter a ilusão.

Alguns retoques finais na maquiagem e Júlio me levou até a sala, onde arrumadas para sair Roberta e Patrícia me aguardavam.

- Queridas, lhes apresento Renata! - anunciou Júlio.

As meninas pareciam estar adorando aquilo tudo. Me deram uma bolsa de couro tipo mochila, me aplicaram um doce perfume, e antes que eu pudesse perguntar o por quê daquilo tudo Patrícia disse:

- Renata, você vai adorar o que vem pela frente: uma tarde de compras.

- Compras? - indaguei.

- Claro! Ou você achava que iria participar deste concurso com nossas roupas?

Eu tremi ante a possibilidade de desfilar em público vestida daquele jeito.

- Mas com que dinheiro? Eu não posso gastar o meu em roupas femininas... - disse, tentando demovê-las da idéia.

- Não se preocupe, eu e Roberta já acertamos isto. Temos dinheiro suficiente para seu pequeno enxoval. Achamos que será melhor do que você usar nossas roupas. Além do mais, ganhando ou não a gincana, a diversão está valendo cada centavo.

Era realmente inútil argumentar com estas garotas ricas e decididas. Não tinha outra opção além de acompanhá-las ao shopping.

Compras no Shopping

Enquanto íamos ao Shopping conversamos sobre minha apresentação no desfile do dia seguinte. Como eu não tinha nenhum dom artístico aproveitável para o concurso de talentos, ficou decidido que eu treinaria uma dublagem da cantora americana Mariah Carey. Quando chegamos ao Shopping, senti um intenso frio na barriga; a idéia de ser vista em público em trajes femininos ainda me assustava bastante. Ao sair do carro e começar a andar com aqueles saltos e de saia, senti uma estranha sensação que misturava medo e excitação. A sensação de liberdade proporcionada pela saia e a brisa batendo em minhas pernas expostas era deliciosa. Procurei andar o mais graciosamente possível, para não parecer desengonçada, e apesar de me sair bem ainda teria que treinar um bocado para dominar com elegância máxima aquelas sandálias plataforma salto 10. Podia sentir também o gosto do batom cremoso em minha boca, meu "cabelo" balançando ao andar, e o peso dos brincos em minhas orelhas, que me deixavam mais do que consciente de minha condição feminina.

Nossa primeira parada foi em uma loja de roupas íntimas. Patrícia e Roberta começaram a escolher algumas peças de lingerie enquanto explicavam para a vendedora qual estilo tinham em mente:

- Ela vai viajar com o namorado e pediu nossa ajuda para comprar algo bem sexy porém não vulgar. - disse Patrícia.

- Pois temos alguns conjuntos que seu namorado vai amar! - disse maliciosamente a vendedora.

Fiquei rubra de vergonha. Aparentemente aquela vendedora nem desconfiava do que se escondia debaixo daquela aparência feminina, ou se desconfiava não demonstrou. Foram me entregues algumas peças que eu deveria levar comigo ao provador. A primeira que experimentei era um conjunto de calcinha e soutien brancos, com rendas e detalhes de lacinhos. Para o concurso de talentos experimentei um espartilho preto também rendado, que vinha acompanhado de uma minúscula calcinha tipo tanguinha e meias pretas sete oitavos que ficavam presas por ligas. Ficou então decidido que eu usaria o espartilho no concurso de talentos e provavelmente também no desfile em traje de noite. Comprei também um branco para as roupas claras. A loja também vendia maiôs, e resolvi experimentar um preto lindo, com finas alças sobre os ombros com apliques de strass - chiquérrimo! Por fim selecionamos também uma camisolinha rosa e meias de nylon de diversos tipos. Patrícia pagou pelas compras e saímos da loja, não sem antes ouvir a vendedora me desejar boa sorte com meu "namorado".

A próxima parada foi em uma loja que mostrava na vitrine um tailleur branco de linho, muito elegante.

- Acho que encontramos a roupa para o desfile em traje típico - disse Roberta.

Entramos na loja, pedimos para ver a roupa e fui ao provador acompanhado da vendedora. Desta vez Patrícia e Roberta ficaram olhando outros modelos enquanto eu experimentava o conjunto, me deixando a sós com a vendedora.

- Você é linda - disse a vendedora - e vai ficar mais linda ainda com esta roupa.

Agradeci lisonjeada, com a voz mais feminina que consegui fazer e que vinha treinando nas últimas horas. Vesti o conjunto, que ficou ótimo. Patrícia e Roberta também aprovaram. Para complementar, experimentei por baixo uma linda blusa branca de seda. Pagamos pelas peças e fomos para uma outra loja de roupas, desta vez num estilo mais moderno e despojado. Nesta loja encontramos a roupa que eu usaria para o concurso de talentos: uma minissaia de napa preta e uma camisa com estampa imitando oncinha, em tons um pouco mais escuros. Vestir todas aquelas roupas estava me deixando bastante excitada, e se não fosse o tapa sexo de Júlio acho que seria difícil disfarçar isto. Experimentei as roupas, que ficaram ótimas, e quando comecei a me destrocar Roberta disse:

- Não Renata! Continue com esta roupa durante nosso passeio.

- Mas esta roupa é muito chamativa! - tentei protestar.

- Não exagere. Além disso, ainda temos que comprar os acessórios, e é melhor você usar esta roupa para não cometermos erros.

Sai da loja de minissaia e blusa de oncinha. Os rapazes que cruzavam por nós no shopping não paravam de me encarar. O pior de tudo é que eles encaravam não como quem está vendo um homem em roupas femininas desfilar num shopping, mas sim com aquele típico olhar imaginando como seria aquela gata (eu!) despida. A esta altura, meus pés não acostumados a permanecer períodos longos de salto alto, mesmo naquelas confortáveis sandálias, começavam a reclamar. Eu preferi não me queixar às minhas amigas pois sabia que seria inútil. Naquela tarde devemos ter entrado em quase todas as lojas femininas do shopping; como tinham disposição aquelas garotas! Acabamos por comprar também um vestido curto preto com cintura bem marcada e decote em V nas costas. Numa loja de bijuterias compramos alguns colares, pulseiras, anéis, uma pulseirinha de tornozelo e brincos. Estes últimos quase me deram problemas, pois as meninas cismaram de furar minhas orelhas e eu a muito custo consegui evitar de sair da loja com pequenos brincos de ouro atarraxados aos meus lóbulos. Acabamos comprando mesmo alguns bonitos modelos de pressão.

As compras se encerraram em uma loja de sapatos femininos famosa por seus modelos sensuais, usando e abusando de saltos e cores. Como fetichista por saltos altos, este foi o momento mais excitante de minhas compras. O medo de ser vista em público montada já havia em parte se dissipado, e eu começava a gostar da experiência de desfilar no shopping em roupas femininas e sandálias de salto. Experimentar todos aqueles lindos modelos era naquele instante uma idéia bastante atraente. O primeiro par que experimentei foi um sapato branco de pelica com um salto 9 em estilo "2 dedos" largo e achatado, fechado na frente e atrás porém aberto dos lados, preso ao tornozelo por uma fina pulseira também de pelica branca com uma fivelinha prateada (os americanos costumam chamá-los de "ankle strap d'orsay shoes"). Enquanto tirava minha sandálias plataforma e calçava os sapatos brancos, mais uma vez agradeci em silêncio a presença do tapa sexo, tal meu grau de excitação. Eles eram bastante confortáveis e tinham um visual bastante elegante. O salto largo facilitava bastante o andar. Tive somente que reajustar a fivelinha da pulseira de tornozelo, que apertei demais e me incomodava ao andar. Afrouxei apenas um furinho e ficou ótima. O próximo par que experimentei foi um modelo de sapatos escarpins pretos com calcanhar aberto preso por uma alça de afivelar (tipo Chanel). Eram de um material meio aveludado, salto 10 agulha e as alças do calcanhar eram decoradas com strass, o que os tornavam uma combinação perfeita para o maiô do desfile. Seu bico fino apertava um pouco os dedos, mas ainda assim era simplesmente delicioso de andar. Eu podia me imaginar desfilando com ele de maiô, os detalhes em strass refletindo as luzes dos holofotes. O próximo par foi escolha minha, sem palpite das meninas: uma sandália preta de salto 12 agulha (stiletto), com apenas duas finíssimas tiras: uma sobre os dedos dos pés e outra para afivelar em volta do tornozelo. Quando terminei de calçá-las e fiquei de pé é que percebi como ofereciam pouca estabilidade: devido à altura dos saltos, todo peso do meu corpo era jogado sobre as pontas dos meus pés, que por sua vez contavam apenas com o suporte de mínimas tiras para prendê-los às solas. Andar com elas era um delicioso desafio, que me fez dar voltas e voltas em frente ao espelho para adquirir o equilibrio e admirá-las. A vendedora chegou a comentar que muitas mulheres desistiam de comprar aquelas sandálias após experimentar e perceber que eram tão difíceis de andar quanto sexys. Roberta e Patrícia aproveitaram para também comprar sapatos, Roberta escolhendo uma mule bege alta e Patrícia uma sandália gelo de salto agulha. O último par que experimentei foram umas sandálias com cerca de 10 cm de salto transparente de acrílico. Estas seriam as sandálias que eu usaria na performance do concurso, e embora bastante altas peguei logo o jeito de andar com elas. Quando comecei a tirar estas sandálias para calçar as sandálias com as quais vim ao shopping, Patrícia sugeriu:

- Não tire ainda. Porque você não vai usando-as no caminho para já ir se acostumando com elas?

Sem dizer uma palavra concordei com Patrícia. Embora não querendo demonstrar, a idéia de passear pelo shopping com aquela roupa e as sandálias de salto transparente era por demais tentadora. Enquanto as meninas pagavam pelos sapatos, andei até o espelho para apreciar a imagem de minhas pernas, procurando imitar a forma de andar das top-models pondo um pé exatamente em frente ao outro, ganhando equilíbrio para desfilar o mais elegantemente possível naqueles saltos enormes. Notei que ao andar desta forma minha cintura se mexia num discreto rebolado. Roberta deixou escapar um curioso comentário:

- Acho que criamos um monstro, Patrícia.

- Na verdade Roberta, acho que estamos assistindo ao nascimento de uma nova mulher... - disse Patrícia.

De costa para as meninas enquanto admirava no espelho minhas pernas e a bunda empinadinha pela nova postura adotada com aqueles saltos, sorri discretamente começando a concordar com ambas...

Festa de Arromba

Ao sair da loja de sapatos, comecei a ouvir o delicioso "click- clack" dos saltos de acrílico no chão de mármore do shopping. Minha roupa ousada e os saltos altíssimos que me levavam para cerca de 1,80 de altura faziam com que eu chamasse por demais a atenção das pessoas, tanto os homens que me olhavam com desejo quanto as mulheres que pareciam misturar despeito e inveja por aquela chamativa "mulher" alta e exuberante. Já cansada, voltamos para casa. Durante o trajeto de volta, enquanto Patrícia dirigia, Roberta ao celular parecia combinar um programa com alguém.

- Fique tranquilo, nós estaremos lá! Beijos... - foram as últimas palavras dela ao telefone.

Chegando ao apartamento fizemos um lanchinho rápido que Dilma havia deixado preparado antes de sair. Foi quando Roberta soltou a bomba:

- Renata, prepare-se. Vamos sair daqui a uma hora e meia

- Para onde? - perguntei.

- Para a reunião de acerto da nossa equipe.

- Tudo bem! É o tempo de eu tomar uma ducha e vestir novamente minhas roupas masculinas.

- Você não entendeu...você vai vestida como Renata!

- O que? Você deve estar doida! De jeito nenhum!

- Sim senhora! - disse Patrícia - Você vai como Renata e muitíssimo bem produzida. Além do mais, para que não houvesse problemas, a Dilma levou suas roupas masculinas e só as trará de volta após o concurso. Até lá você será somente Renata. Sem contar que estão todos curiosos para te conhecer.

Fiquei absolutamente mortificada! Até agora eu já havia me acostumado a ficar montada na frente dessas meninas, e mesmo passear no shopping entre estranhos. Mas aparecer como Renata na reunião de nossa turma de faculdade era assustador. Não houve jeito de convencê-las do contrário, e comecei minha produção. Iria usar espartilho por baixo do vestido preto que havia comprado há pouco. E já que era para caprichar, resolvi estrear a sandália preta salto 12 que havia comprado. Maquiagem mais forte para a noite, ajudada pelas meninas, desta vez com batom bem vermelho, perfume, peruca, bijuterias e eu estava pronta. As meninas também capricharam: Patrícia de calça jeans de cintura baixa, camisa e tamanco alto café combinando. Roberta com vestidinho e sandália alta vermelhos. Que trio nós formamos naquela noite

- Não poderíamos ficar atrás de você, Renata, senão toda atenção masculina da noite seria sua - disse Patrícia rindo logo seguida por Roberta.

Conversamos amenidades no carro, e as meninas mal podiam conter sua ansiedade em me mostrar para o resto da turma. Ao chegar na República local da reunião, antes que eu saísse do carro as meninas me mandaram retocar a maquiagem, o que fiz com auxílio do espelho retrovisor. Uma nova camada de batom foi suficiente. Ao entrarmos na casa, o anúncio de Roberta:

- Atenção turma, apresento a todos Renata!

A surpresa e o espanto foram gerais. Não pela minha presença montada, que todos já esperavam, mas pela qualidade da produção. Os rapazes ficaram absolutamente surpresos e boquiabertos com aquela "gata" que até ontem era seu colega de turma. As outras meninas da nossa turma pareciam não acreditar que eu estava mais bonita que a maioria absoluta delas. O silêncio só foi quebrado por Roberta:

- E então? Vamos ou não ganhar o concurso da gincana?

- Você está brincando? Acho que ele...ou ela... ganharia até o Miss Brasil! Pelo menos aquele de Juíz de Fora. - disse Ricardo, um de meus colegas de faculdade. A gargalhada foi geral e meu rubor só não foi mais evidente porque ficou escondido pela maquiagem.

A maioria de meus colegas parecia não conseguir tirar os olhos de minhas pernas. Sentei-me em um sofá ao lado de minhas duas amigas e produtoras, não me esquecendo da recomendação de segurar a barra da saia. Optei por cruzar as pernas bem fechadas e coladas umas as outras, o que revelava apenas um pouco de minhas coxas pela lateral da saia. Era uma situação esquisitíssima estar no meio de meus amigos e amigas com toda aquela produção, mas esta sensação foi diminuindo a medida em que começamos a tomar o tradicional vinho de garrafão enquanto planejávamos o dia seguinte da gincana. O álcool foi me relaxando, e um par de horas mais tarde eu estava completamente a vontade como Renata.

Com todos já meio alterados pela bebida, o papo de gincana foi logo substituído por uma festa a meia luz e música. Os casais logo começaram a se juntar, alguns antigos, outros novos, e eu assistia a tudo sentada sozinha em um canto da sala. Os rapazes estavam em clima de azaração (do qual eu não me sentia a vontade para participar naquele momento)e as meninas pareciam ter medo de ficar ao meu lado e perderem na comparação de beleza. De repente, Ricardo, o mesmo que fez um gracejo na minha chegada, aproximou-se:

- Renata, acabei de fazer uma aposta com o Ronaldo de como teria coragem de dançar com você. Me ajuda? - disse, ao mesmo tempo em que apresentava um simpático sorriso.

Titubeei um pouco e acabei me decidindo:

- Claro, porque não? É apenas uma aposta - respondi cansada de ficar sentada sozinha em um canto.

Começamos a dançar, a princípio uma música rápida. Era difícil mas ao mesmo tempo delicioso dançar de vestido e salto agulha. Eu tinha que me concentrar para não perder o equilíbrio. Mas a música subitamente foi substituída por uma música lenta, daquelas que só se dança agarradinho. Olhei para o som e pude Ronaldo sorrindo maliciosamente. Antes que eu pudesse pensar, Ricardo me abraçou e sussurrou nos meus ouvidos:

- O Ronaldo está tentando me forçar a desistir. Não vamos perder a aposta agora, vamos?

- Claro que não! - e começamos a dançar juntos. Mesmo tendo eu mais de 1,80 com aqueles saltos, Ricardo era ainda mais alto, e graciosamente foi me conduzindo. Comecei a me acostumar com aquela dança, quando percebi um volume aumentando em suas calças. Era Ricardo ficando excitado! E o que era pior, eu também estava, com toda aquela situação e aquele vinho. Enebriados, começamos a dançar a segunda música, e de repente estávamos colados, com ele sussurrando ao meu ouvido como eu estava linda, que havia surpreendido a todos com a minha beleza, e outras coisas mais. Afetada pelo vinho, comecei a me envolver em toda aquela situação. De repente estávamos olhando fixamente um para o outro nossos lábios praticamente se tocando, quando fui discretamente puxada para trás! Era Roberta:

- Já está tarde Renata, amanhã teremos um longo dia.

Me dando conta do acontecido, despedi-me envergonhada do resto da turma e fomos as três para o carro, Roberta, Patrícia e eu. No caminho de casa, surgiu logo o assunto:

- Acho que Renata arranjou um namorado! - brincou Roberta.

- E que bom gosto, o Ricardo é um gatinho...- gracejou Patrícia.

- Ei, não é nada daquilo que vocês estão pensando, era tudo apenas uma aposta de como ele teria ou não coragem de dançar comigo! Eu somente resolvi colaborar. - tentei me defender.

- Aposta ou não, a verdade é que se eu te tirasse dali, vocês dois iriam acabar se beijando!

Roberta tinha razão. Era melhor ficar calada para não piorar minha situação.

15 minutos depois chegamos na cobertura, e fui direto para o quarto com intenção de tirar aquelas roupas, sandálias e maquiagem. Antes porém sentei na cama, me fitando no espelho do quarto, dando uma última olhada no meu visual enquanto meditava nos acontecimentos daquela noite. Só conseguia pensar em como iria encarar minha turma de novo depois de tudo aquilo. O que deveria estar passando pela cabeça de Ricardo e do resto do pessoal?

De repente a porta do quarto se abre: era Roberta, vestindo um bonito robe de seda e ainda maquiada e com suas sandálias altas vermelhas:

- Não consegue dormir, Renata?

- Estou tentando entender como deixei as coisas transcorrerem daquele jeito esta noite. Nunca tive e nem tenho atração por homens, mas naquele momento pareceu alguma coisa tão natural, eu me sentia tão sexy e desejada com aquelas roupas e todo aquele vinho...

- Eu sei o que você está sentindo. Talvez tenha sido um erro produzir você com todo aquele arsenal feminino de vestido, sandálias de salto agulha, lingerie, maquiagem e outras armas sensuais e não avisá-la de que além de atrair os olhares masculinos, eles fazem você se sentir extremamente feminina e sexy. O vinho provavelmente só veio a multiplicar este efeito.

- Ainda assim vai ser difícil para mim encarar a todos daqui para frente.

- Talvez eu possa lhe ajudar - Roberta olhava sensual e fixamente para meus olhos.

- Como assim?

Sem dizer uma palavra, Roberta tirou o robe e sentou na cama ao meu lado, deixando revelar seu lindo corpo emoldurado apenas por uma sumária ligerie vermelha rendada. Aproximou-se de mim e começou a acariciar meu corpo com a ponta de seus dedos, enquanto falava baixinho em meus ouvidos:

- Você está um tesão Renata, e eu estou molhadinha só em te olhar assim tão feminina...

Por segundos fiquei estarrecida, tentando processar toda aquela situação. Pela segunda vez naquela noite estava me sentindo excitada e desejada, e melhor, desta vez não havia ninguém para assistir ou nos separar. Respondi aos carinhos de Roberta acariciando seus seios macios e empinadinhos, enquanto sentia suas unhas deslizando pelas minhas costas. Roberta começou a tirar meu vestido enquanto beijava todo meu corpo, deixando marcas de batom vermelho. Respondi retirando seu soutien e fazendo-a deitar na cama, enquanto descia minhas mãos pelas suas coxas e virilha, podendo perceber arrepios de satisfação. Roberta começava a gemer baixinho, deixando transparecer todo tesão que sentia. Tirei sua calcinha deixando-a somente de sandálias, e comecei a fazer pequenos carinhos com minha língua, ao mesmo tempo em que meu indicador direito a penetrava e massageava. Alucinadas de tesão, repirávamos ofegantes. Antes que gozasse, Roberta começou a retirar meu espartilho e minha calcinha de lacinhos. Ao soltar o tapa sexo, o efeito foi imediato: meu membro empinou rígido sendo prontamente seguro pelas suas mãos. Como uma verdadeira predadora, Roberta começou a me chupar incessantemente, e desta vez era eu que sentia ondas de prazer a me percorrer o corpo. Prestes a ejacular, pedi-lhe que parasse e se ajoelhasse de quatro: eu queria possuí-la por trás. Sem pestanejar, Roberta posicionou-se e penetrei-a firmemente, mantendo um movimento ritmado enquanto deitava por sobre suas costas e acariciava-lhe os seios. Era possível sentir nossas pernas se roçando, nossos pés se acariciando ainda com nossas sandálias de salto. Ela gemia loucamente. A pedido de Roberta, deitei-me na cama enquanto ela sentava por cima de mim e começava a me cavalgar, mexendo com maestria seus quadris e contraindo sua musculatura vaginal como nunca eu havia sentido. Meu pênis latejava de prazer anunciando um gozo iminente. Antecipando meu orgasmo, Roberta diminui seus movimentos para prolongar nossa transa, enquanto passava a mão pelos meus cabelos. Deitou sobre mim e começou a acariciar-me, chupando-me no pescoço, tendo o cuidado de fazê-lo suavemente para não deixar marcas. Enquanto eu procurava apertar e sentir a bundinha gostosa de Roberta em minhas mãos, ela começou a passar seu dedo em sua vagina e em seguida em torno de meu ânus, molhando-o com suas secreções. Sem avisar nada, penetrou-me com seu indicador fazendo-me gemer com a estranha e nova sensação. Sua outra mão apertava e acariciava minha bundinha. Meus gemidos pareceram lhe excitar mais ainda, pois iniciou movimentos frenéticos com seu dedo enquanto dizia que eu era uma fêmea muito gostosinha de se comer. Eu podia sentir ela acariciando minhas coxas e minha bunda, envolvida numa aura de prazer ilimitada. Encerramos a transa com Roberta cavalgando sobre mim, eu sentada no bordo da cama enquanto observava no espelho do quarto as costas e bunda de Roberta se agitando e sendo acariciadas pelas minhas mãos. Nós duas gozamos juntas, como nunca antes havámos gozado.

Deitamos lado a lado, maquiagens borradas, e nos abraçamos. Após um curto silêncio, Roberta perguntou:

- Você seria minha namorada, Renata?

- É o que eu mais gostaria. Mas a Renata deixará de existir após a gincana... - respondi.

- Somente se quiser. Você poderia ser Renata pelo menos para mim...

- Você gosta de mulheres, Roberta? - perguntei surpreso.

- Não exatamente...Bem, eu tinha uma fantasia até hoje não realizada...transar com um homem vestido de mulher, ou melhor, uma mulher com um detalhe especial, uma fêmea linda e superproduzida que em nada lembrasse o homem por trás de toda sua sensualidade. O melhor dos dois mundos! Nunca imaginei que pudesse realizar esta fantasia. Os meus ex-namorados que consegui convencer a se deixarem produzir jamais ficaram com uma aparência verdadeiramente feminina. Mas você Renata, você me deixou completamente louca desde a primeira vez que te vi produzida. Mal pude conter meu tesão. Ali eu soube que teria de seduzir você de qualquer forma. Por isso separei você do Ricardo na festa. Eu estava morrendo de ciúmes...

Não pude deixar de abrir um sorriso e responder com um longo beijo ...

O Dia Seguinte

Quando acordei na manhã seguinte, Roberta já havia ido para seu quarto. Ainda transamos duas outras vezes após nossa conversa inicial, e cada vez mais Roberta havia assumido uma postura agressiva e dominadora na cama. Longe de me incomodar, eu ficava bastante excitado com isso. Fui para o banheiro tomar uma ducha após olhar no relógio e ver que já passava das nove horas. Retirei o resto da maquiagem, e mesmo assim ainda podia observar um rosto feminino refletido pelo espelho. Toda esta brincadeira estava mexendo comigo de uma forma inesperada e intensa. A água quente parecia lavar e carregar com ela todos os estresses do dia anterior. Eu agora só pensava em Roberta e na tal gincana. Saí do chuveiro enrolada na toalha até o peito e com outra toalha enrolada na cabeça. Vesti um dos conjuntos de calcinha e soutien brancos comprados no shopping e sentei na penteadeira para me preparar. Eu resolvi aparecer para as meninas, especialmente Roberta, já devidamente produzida. Comecei a me maquiar e optei por uma maquiagem leve, uma vez que ainda não estava acostumada com os detalhes para aplicar uma maquiagem mais complexa. Encerrei com um batom rosa, que me pareceu perfeito para a ocasião. Penteei a peruca, prendi-a na minha cabeça e fui me vestir. Resolvi experimentar a camisola rosa que havia comprado; podia imaginar-me tomando café da manhã de camisola com Roberta e Patrícia, e a idéia me atraía. Terminei calçando o mesmo tamanco branco de salto do dia anterior e saí do quarto. As meninas pareciam estar dormindo ainda, então resolvi esperá-las no sofá da sala. Para passar o tempo comecei a folhear algumas revistas femininas de moda e fiquei inebriada com a enorme variedade de modelos de roupas, sapatos, produtos de maquiagem e outros artigos femininos anunciados. Duas reportagens me chamaram a atenção: um texto sobre mulheres famosas falando quais artifícios usam para seduzir os homens, e uma reportagem sobre os sapatos que marcariam este verão - sandálias de saltos altíssimos: agulha, anabela, plataforma, quadrados, largos, de todos os tipos. Nem percebi que Patrícia se aproximava, apenas ouvi sua voz:

- Bom dia Renata. Vejo que já se arrumou sozinha. Está escolhendo um novo modelo? - disse, apontando para a revista.

- Bom dia Patrícia. Creio que não, já tenho sapatos de salto alto suficientes por enquanto... mais do que pretendo usar.

- Sapatos sexys nunca são demais, querida. Roberta já acordou? - Esta pergunta foi seguida de um sorriso malicioso.

- Ainda não a vi. Deve estar dormindo.

- Sim deve estar... Afinal de contas, vocês foram dormir tarde ontem, não?

- Como assim? - perguntei surpresa. Pensei comigo: será que ela sabia?

- Eu a vi indo ao seu quarto. E não a vi saindo.

- Sim, ela foi me acalmar, eu estava meio nervosa após a festa...

- Sim, sei... - Patrícia parecia já ter sua opinião formada sobre o assunto - Vou para a cozinha ver o que temos para o café da manhã.

Logo que Patrícia saiu, Roberta surgiu na sala ainda com a cara meio sonolenta. Vestia o mesmo robe de ontem, desta vez com um tamanquinho baixo. Se aproximou de mim e beijou-me levemente nos lábios:

- Bom dia Renata. Dormiu bem?

- Sim, nem vi você sair...

- Saí logo depois que você dormiu, fui para meu quarto tomar um banho. Viu Patrícia?

- Sim. Ela parece desconfiar do que aconteceu entre a gente.

- É de se esperar. Patrícia é uma pessoa muito atenta ao que acontece ao seu redor. Não se preocupe, não temos nada a esconder. Pense bem e verá que apesar de parecer o contrário, somos um casal absolutamente normal.

- É, talvez você tenha razão.

O resto da manhã passamos treinando especificamente para o desfile. Durante horas fiquei desfilando na cobertura como se estivesse realmente na passarela, além de repetir um sem número de vezes minha dublagem de Mariah Carey. Paramos somente para almoçar e logo em seguida mais ensaios. Foi então que me dei conta: eu ainda não tinha o vestido para o traje de gala!

- Vocês se deram conta de que esquecemos o traje de gala para o desfile? - perguntei.

- Quem disse? - perguntou Roberta.

- Eu estou dizendo. O único vestido que tenho é aquele pretinho básico que comprei ontem, e não serve para o concurso.

- Na verdade temos sim seu traje de gala. - disse Roberta - Eu pretendia lhe mostrar mais tarde, mas talvez seja melhor que você o experimente agora, embora eu tenha certeza que ele vai lhe cair como uma luva quando você estiver com seu espartilho e enchimentos. Vou buscá-lo. - e saiu em direção ao seu quarto.

Pouco depois estava de volta, trazendo em suas mãos um vestido preto pendurado em um cabide e protegido por uma capa plástica.

- Este vestido é meu, embora eu nunca tenha usado. Vista seu espartilho preto e os enchimentos que Júlio lhe deu - disse Roberta.

Fui para o banheiro e vesti os itens determinados. Ao voltar, pude ver estendido sobre a cama um lindo vestido longo negro de seda, frente tomara-que-caia com bordados na sua parte superior, prolongando até os tornozelos em corte reto e com uma não muito pequena fenda lateral. Eu mal podia esperar para vestí-lo. Primeiro calcei minhas sandálias pretas salto 12, as mesmas que usei na festa da equipe, em seguida o vestido. Enquanto Roberta fechava o zíper na parte posterior, pude sentir que ele colava em meu corpo quase como uma segunda pele, porém sem apertar. Antes que eu pudesse me olhar no espelho ouvi a exclamação de Roberta:

- Perfeito, ficou absolutamente lindo em você Rê! - era a primeira vez que ela me chamava assim.

Ao me olhar no espelho confirmei eu mesma o que Roberta disse. O vestido havia ficado perfeito em meu corpo feminilizado pelo espartilho, prótese mamária e "pneus". Somente a prótese dos seios parecia um pouco artificial, contrastando com minha pele verdadeira. Roberta disse que Júlio já havia lhe informado sobre esse detalhe, garantindo que faria uma maquiagem para resolver o problema.

O concurso de Miss estava previsto para iniciar às 18:00h. O encerramento da gincana seria logo depois, às 20:00h. Quando eram cerca de 15:00h, as meninas encerraram o treinamento e fui tomar um bom banho quente. Às 16:30 finalmente saímos para o desfile.

Os Preparativos Finais

Ficou combinado que Júlio e Clara nos encontrariam no local do desfile, e lá fariam minha maquiagem para o concurso. O desfile seria realizado no ginásio coberto da faculdade, onde foi montado uma espécie de palco (o mesmo frequentemente usado para shows e outros eventos patrocinados pela própria faculdade). Os apresentadores do desfile seriam J. Carlos, um famoso radialista da cidade, e Débora, repórter do jornal local . Ao chegarmos no ginásio, uma surpresa: ele estava completamente lotado! A gincana estava sendo um sucesso, havia mobilizado a cidade inteira, e parece que todos aguardavam ansiosamente pelo desfile das "Misses". Logo encontramos Ronaldo, que aparentou estar surpreso ao me ver chegando já montada, embora nada comentasse.

- Muito bem meninas, já conversei com a organização da gincana e eles me disseram que atrás do palco foi montado uma espécie de camarim improvisado onde todas as "candidatas" (e ele disse isso em tom sarcástico) deverão se aprontar. Nossa equipe está ganhando por uma diferença mínima da equipe da Engenharia e ainda faltam poucos pontos além deste concurso. Você vai ter que se esmerar, Renata - e disse isso seriamente, como que jogando a responsabilidade de nossa vitória em minhas costas.

Antes que eu pudesse responder, e provavelmente engasgada com os acontecimentos da noite anterior, Roberta se manifestou:

- Ronaldo, olhe bem para Renata e me diga: acha mesmo que alguém pode tirar o título dela? Quantas mulheres você conhece nesta faculdade que tem metade da beleza de Renata? Seja sincero: não se sente até mesmo atraído por ela? Vamos, diga...

Ronaldo, completamente constrangido, só conseguiu balbuciar que eu provavelmente seria a Miss mais bonita, mas esperava que os juízes achassem o mesmo. Para evitar mais constrangimentos, fomos em direção ao camarim.

- Você não precisava me defender, Roberta. Eu sei me virar... - disse.

- Sim, eu sei ... - disse Roberta, sob os olhares maliciosos de Patrícia - É que eu não aguentei ouvir aquele babaca do Ronaldo querendo aparecer. Eu vi como ele te olhava com tesão naquela festa. Acho mesmo que inventou aquela aposta só pra se imaginar no lugar do Ricardo, ou talvez até para arranjar um jeito de também dançar com você depois dele a título de brincadeira e sem despertar suspeitas.

Achei melhor não fazer mais comentários. Quando chegamos no camarim verificamos que eramos a segunda equipe a chegar (seriam ao todo seis). Se dependesse da Miss Engenharia, que já se encontrava no local, nossa vitória seria fácil. Mal produzida, a Miss Engenharia era grosseira, toda peluda e desengonçada. A maquiagem pesada parecia piorar mais sua aparência. Nos apossamos de uma pentedeira livre e começamos a preparar nosso material. Havíamos trazido duas sacolas de mão: uma para os sapatos e outra para as roupas, exceto os vestidos e o tailler, que vieram em cabides e protegidos por sacos plásticos. Patrícia pegou seu telefone celular e ligou para Júlio, confirmando sua vinda e fazendo os acertos finais.

Aos poucos as outras "Misses" foram chegando. Primeiro a Miss Direito, em seguida a Miss Administração. Todas elas estavam vindo em seu modo masculino, de modo que iríamos ter de esperar um pouco mais para ver a qualidade da produção. Enquanto aguardávamos a chegada de Júlio e Clara, ficamos sabendo novidades da gincana: a Engenharia havia ganho o Raid Off-Road, e com nossa quinta colocação (uma quebra da nossa equipe fora responsável pelo mau resultado) passara bastante a nossa frente. Pelos nossos cálculos, seria necessário vencer o concurso de Misses e torcer para que a Engenharia ficasse no máximo na quarta colocação. Más notícias...

- Acho que o Ronaldo afinal estava certo, nossa vitória depende de você, Renata. - disse singelamente Patrícia.

- É parece que sim... - foi o que pude dizer. Preferia entrar no concurso com uma margem de pontos maior, a pressão só tornava tudo mais difícil.

Como que sentindo minha ansiedade, Roberta pediu a Patrícia para falar a sós comigo:

- Renata, olhe para mim. Nos meus olhos.

Olhei fundo nos olhos dela.

- Quero que você saiba de uma coisa - continuou Roberta - Desde que começou esta história, fui cada vez mais me sentindo atraída por você. Já sabe disso. O que não sabe, é que há algum tempo eu já sentia uma atração pelo seu "alter ego" masculino, uma atração diferente, como que uma grande afinidade. Você é completamente diferente dos meus ex-namorados, todos eles faziam o tipo atlético: altos, fortes, mas no fundo uns grandes idiotas, pensavam mais neles do que em qualquer outra coisa. Mas você sempre me passou uma idéia diferente, a de um homem mais sensível, atencioso, gentil, e eu confirmava isto conversando com as garotas quem você ficava. Principalmente a Gabriela, sua última namorada. Ela vivia falando como você era carinhoso. Quando começamos esta brincadeira de Miss Odontologia, eu enxerguei a possibilidade de ter você em minhas mãos, e o que é melhor, como uma mulher. Por isso fui a principal mentora da sua indicação como nossa Miss, me voluntariando para a responsabilidade de te treinar para o concurso. Acho que Patrícia percebeu isso, e como minha boa prima tem me ajudado nesta idéia. Aconteça o que acontecer neste concurso, não vai afetar em nada o que sinto por você. Não deixe que os outros te pressionem. Quando chegar a hora, seja apenas Renata, como você tem feito tão bem até agora. E lembre-se que o melhor prêmio que eu poderia ganhar nesta gincana eu já ganhei ontem a noite...

Emocionada, só pude dizer a Roberta que também já havia ganho meu grande prêmio, antes de beijá-la apaixonadamente. Fomos interrompidas pelos olhares surpresos de Júlio, Clara, Fabíola, Joana (duas de nossas colegas de turma) e não tão surpresos de Patrícia, que chegavam para ajudar em minha preparação final.

Em pouco tempo chegaram as outras "Misses": a da faculdade de Letras, que também veio em seu modo "en femme" e a da Medicina. A área reservada como camarim aos poucos ia se transformando em uma espécie de salão de beleza e vestiário, com penteadeiras cheias de produtos de beleza, roupas e sapatos femininos por todas as partes. Júlio e Clara foram logo cuidando da minha produção. Sentada em frente a penteadeira e sendo maquiada, penteada e vestida, eu não conseguia ver as "outras candidatas", mas pelo que ouvia dos comentários das meninas, a "Miss Letras" era minha mais forte concorrente. Para aproveitar as luzes do palco, Júlio me explicou que estava fazendo uma maquiagem em tons mais fortes e brilhantes, que valorizariam meu rosto para a platéia. Cuidadosamente vesti meu tailler branco, com meias brancas e o sapato alto de pelica branca. Foi então que me olhei no espelho em frente e pude perceber o magnífico trabalho de Júlio e Clara: minha peruca estava penteada em uma espécie de coque no alto da cabeça, que deixava mechas caindo pelas laterais. Minha maquiagem era em tons mais vibrantes, batom vermelho vivo e brilhante desenhando lábios um pouco maiores e bem mais sensuais do que eu estava acostumada a ver em mim, lápis preto no contorno dos olhos e sombra que conferiam um leve aspecto amendoado. Brincos, colar e pulseira de pérolas emprestados por Roberta completavam o visual. O trabalho de Julio, Clara e as meninas fora realmente maravilhoso!

- Voilá! - disse Júlio.

- Adorei, você está linda Renata! - disse Patrícia.

Eu começava a me sentir mais confiante nas nossas possibilidades na gincana. Resolvi então olhar em volta para conferir a produção das outras concorrentes. Após os últimos resultados e vendo a importância do concurso de Misses para definição da gincana, o pessoal da Engenharia tentou melhorar de última hora a produção de sua "candidata". Os esforços porém não foram muito proveitosos: apesar de agora de pernas depiladas e com produção melhorada, a Miss Engenharia continuava muito masculina no seu porte físico e trejeitos. A Miss Direito parecia um pouco melhor, vestindo uma toga preta estilizada e treinando de um lado para outro o desfile em seus escarpins de salto agulha. A Miss Administração (magérrima e altíssima) não parecia estar nada a vontade como representante de sua faculdade, como deixava transparecer seu olhar cabisbaixo. A Miss Medicina me parecia apenas razoavelmente bem produzida, vestindo um conjunto de saia e blusa brancos com acessórios na mesma cor (escarpins de salto alto e bolsa a tiracolo). Era por fim a Miss Letras quem parecia realmente ser minha mais forte concorrente. Eu era obrigada a admitir que ela estava absolutamente linda, lembrando uma bela italiana de traços finos e olhos grandes, vestindo uma saia preta até o joelho, blusa de seda branca, meias fumê com costura na parte posterior e belíssimos escarpins de verniz preto salto agulha e bico fino. Seus cabelos negros estavam parcialmente presos em um coque, deixando alguns fios caídos emoldurando seu rosto. A maquiagem para noite, muitíssimo bem feita, era acompanhada por seus óculos de armação super discreta que lhe conferiam um ar intelectual. Enfim, uma belíssima professora.

- Quem está representando a faculdade de Letras? - quis saber curioso.

- Não tenho certeza, pois ela chegou produzida como você. Mas pelo que vi durante a maquiagem, me pareceu aquele garoto tímido que quase não fala com ninguém, o Álvaro.

Guardadas as devidas proporções, realmente haviam algumas semelhanças entre as feições do Álvaro e da Miss Letras. Quem diria que aquele cara poderia se transformar numa mulher tão bela! Absorto em meus pensamentos, mal notei quando Joana anunciou as últimas novidades:

- Pessoal, acabaram de definir por sorteio a ordem do desfile. Você será a terceira Renata, logo depois da Administração e Engenharia. Em seguida virão a Medicina, Letras e Direito. O desfile está previsto para começar em pouco tempo e a platéia já está lotada!

Passei os próximos minutos me concentrando e repassando tudo o que as meninas, Júlio e Clara haviam me ensinado nestes dois dias. A verdade é que depois deste final de semana vivendo "full time" como uma mulher, eu já agia quase que naturalmente como uma. A hora de apresentar Renata a todos havia então chegado!

Showtime

Pouco antes de iniciar o desfile, os organizadores da gincana responsáveis pelo concurso reuniram as seis "Misses", e deram as instruções finais para o desfile. Seria tudo muito simples: após anunciada pelo apresentador, cada Miss entraria no palco, desfilaria duas vezes pela passarela e se dirigiria para a posição onde permaneceria até que todas as Misses desfilassem. Estes locais foram marcados no piso do palco com números, de forma que ficariam posicionadas três de nós de cada lado do palco. Eu ficaria a direita, ao lado das Misses Administração e Letras.

O concurso começou com a entrada no palco de J. Carlos, elegantemente envergando um smoking, acompanhado por Débora, vestindo um belíssimo longo azul. Após as esperadas piadinhas a respeito do sexo das "candidatas", o desfile por fim teve seu início.

A Miss Administração abriu a passarela com seu jeito desengonçado, mal conseguindo tirar os olhos do chão. Não sei porquê escolheram ela para o concurso; parecia querer cavar um buraco e esconder a cabeça de tão envergonhada. O público não deixou por menos, e mesmo de onde estávamos era possível ouvir os gracejos gritados pela platéia.

A Miss Engenharia veio logo a seguir, e naturalmente a platéia se divertiu com a aparência masculina dela. Por mais que se esforçasse, parecia mais um soldado marchando do que qualquer outra coisa.

Enquanto eu passava a mão pelas minhas pernas para alisar minhas meias, ouvi J.Carlos anunciar pelo microfone:

- Representando as futuras dentistas desta cidade, com vocês a Miss Odontologia!

Enfim a passarela! Por segundos tive a impressão de que meu coração sairia pela boca de tão nervosa. Para acentuar meu nervosismo, o auditório barulhento se calou enquanto eu dava os primeiros passos na passarela. Todos me olhavam em silêncio! Eu só conseguia ouvir o barulho característico dos meus saltos no piso de madeira, procurando me concentrar nos passos e não perder o equilíbrio. De repente, para minha completa surpresa, uma ruidosa salva de palmas veio da platéia. Eu parecia estar agradando muito!

Terminei meu desfile o melhor que pude, andando sobre uma linha imaginária e movimentando o mais graciosamente possível meus braços. Após as inesperadas palmas da platéia, começaram os já costumeiros gracejos e elogios. Dirigi-me à minha marcação e posicionei-me ao lado da Miss Administração, sem esquecer-me da posição ensinada por Júlio: sempre sorrindo, coluna ereta, braços para trás e perna direita ligeiramente para frente e rodada para fora num pequeno ângulo. Eu me sentia a própria telemoça...

As outras meninas desfilaram em seguida, sem nenhuma surpresa maior. As Misses Medicina e Direito fizeram uma apresentação regular, sem nada que as distinguisse. Já a Miss Letras também pareceu agradar muito ao público, impressionando-me a graça com que ela andava com aqueles scarpins altíssimos, com se fizesse isto já há muito tempo.

Após a apresentação dos trajes típicos, nos retiramos do palco para nos prepararmos para o concurso de talentos. Assim que cheguei aos bastidores fui recebida por Júlio e Roberta com um enorme abraço:

- Você foi ótima, querida. Conheço pouquíssimas meninas com metade do seu charme e presença quando montadas - disse Júlio num sincero elogio.

- Você estava linda, Rê! - disse Roberta - O pessoal não esperava uma Miss tão bonita e feminina, você os deixou sem fala.

- Obrigada gente... vocês acham mesmo que eu agradei?

- E você ainda tem dúvida? Não viu como te aplaudiram? - afirmou uma entusiasmada Roberta.

- Sim Renata, todos gostaram muito com certeza. Mas ainda temos bastante trabalho até o final do concurso e o tempo é super curto. Como você deve ter percebido, a Miss Letras também está uma candidata muito forte ao título. Vamos logo te preparar para o concurso de talentos.

Júlio estava certo. Ainda havia muito o que fazer para tentar ganhar este concurso e a gincana.

Tínhamos pouquíssimos minutos de preparação para a próxima etapa. Assim que cheguei em nossa parte do camarim, Clara foi me ajudando a despir a roupa branca. Logo surgiu um problema imprevisto: como trocar a lingerie na frente de todos, mesmo de tapa-sexo? Tive que trocar a calcinha por baixo do roupão que por sorte trouxemos. O espartilho negro foi então vestido sem problemas. Assim que acabei de calçar as meias de nylon (daquele modelo próprio para sandálias, que deixam os dedinhos a mostra), prendi-as nas ligas e vesti a saia preta e a blusa de oncinha. Júlio então mandou-me sentar para retocar a maquiagem e fazer pequenas correções, uma vez que o tempo seria pequeno demais para uma nova maquiagem completa. Após sentar-me em frente à penteadeira, podia sentir Clara calçando em meus pés as sandálias de salto transparente. Rapidamente estava pronta para a etapa seguinte.

Assim que J. Carlos e Débora terminaram os entretenimentos do intervalo, começou o desfile de talentos. Quase todas as candidatas optaram pela dublagem, incluindo a Miss Letras com uma dublagem de Celine Dion. Ela estava muito bonita, de vestido longo vermelho e mules pretas de salto agulha. Somente a Miss Administração fez um pequeno recital de violão, que ficou comprometido pela baixa qualidade do sistema de som. Minha apresentação parece ter agradado; a música que escolhemos tinha um ritmo rápido e animado, o que certamente contribuiu para animar a platéia. Em contrapartida, foi bastante difícil e cansativo me manter durante cerca de três minutos pulando,dançando e andando de um lado para outro do palco naqueles altíssimos e finos saltos de acrílico. Agradeço a Roberta e Patrícia terem insistido para que eu me acostumasse a ficar em cima de saltos o máximo possível, pois só assim obtive domínio suficiente para poder dançar com desenvoltura.

Enquanto era preparada por Júlio e Clara para o desfile de maiô, Patrícia veio da platéia com novidades:

- Pessoal, o público está adorando o concurso. Tem até gente achando que a Renata e a Miss Letras são na verdade mulheres de verdade.

Mais uma vez senti o rosto enrubecer.

- Devemos muito disto a Júlio e Clara - disse Roberta.

- Obrigada Roberta - falou Júlio - Mas na verdade o mérito maior é de Renata. Nenhuma maquiagem, roupa e pneus seriam capazes de sozinhos transformá-la nesta mulher divina. Querida, você está sendo Ma-ra-vi-lho-sa! - disse ele para mim. Eu olhei para Roberta e vi ela que tinha nos lábios um discreto sorriso.

Vesti o maiô negro, meias cor da pele e calcei os escarpins pretos com strass. A maquiagem que Júlio fez nas próteses de mama para igualá-las a cor da minha pele ficou realmente sensacional. Primeiro uma base, que deixava pele e próteses com a mesma cor, e por fim uma leve sobra nos seios, que realçava a idéia de profundidade. Um velho truque para realçar os seios e muito usado por CD's, segundo ele.

Talvez o desfile de maiô tenha sido a mais contrastante de todas as etapas. A maioria das Misses se apresentou com pêlos no corpo (braços, peito, axilas). Mais uma vez a minha grande adversária era a Miss Letras. Assim como eu, ela estava completamente depilada, e de alguma forma conseguiram produzir um corpo lindo: cintura fina, quadris largos, busto médio e pernas grossas. Vestia um maiô negro com um broche brilhante no centro do peito e usava um sapato lindo: preto, de pelica, aberto dos lados e fechado na frente, de bico fino e salto anabela bem alto, provavelmente 9, com tiras envolvendo o tornozelo e presas com velcro. O público delirou quando ela desfilou. Neste ponto do concurso, a organização da gincana surgiu com uma surpresa: cada candidata seria entrevistada por J. Carlos e nossas respostas bem como nossa voz e feminilidade fariam parte do julgamento.

A Miss Administração, vestindo um maiô azul marinho e escarpins da mesma cor de salto médio, não conseguiu dizer uma frase sem gaguejar ou ficar vermelha a cada pergunta que lhe era feita. A Miss Engenharia estava bastante desinibida, e seu jeitão masculino afeminado tornou sua entrevista muito engraçada. Me lembro até hoje de duas das perguntas de J. Carlos para mim e respectivas respostas:

- O que está sendo mais difícil para você como mulher?

- O mais difícil? acho que...urinar sentada! - me lembro que logo após este gracejo cheguei a me arrepender pois alguém poderia considerar uma piada de mau gosto; meu arrependimento foi completamente dissolvido pelas gargalhadas da platéia e sorriso dos jurados que pude ver de onde estava.

- Se fosse convidada por uma revista masculina para posar nua, você aceitaria?

Eu titubeei um pouco nesta pergunta, mas acabei respondendo que a idéia não me passava pela cabeça, e que provavelmente não pois minha carreira como Miss Odontologia seria curta demais para um ensaio fotográfico. Além do mais, não gostaria de me arriscar a um processo por propaganda enganosa, acrescentei sorrindo.

O público pareceu gostar de minhas respostas. A Miss Medicina também pareceu sair-se bem. Ela tinha uma voz muito suave, talvez a melhor de todas nós. Vestia um maiô também azul marinho e sandálias altas de tirinhas pretas. Apesar de lindamente produzida, a Miss Letras me pareceu bem fraquinha, com uma voz em falsete bastante cansativa. Por último foi entrevistada a Miss Direito, da qual não me lembro nada interessante.

Encerrada mais esta etapa, voltamos correndo ao camarim improvisado para iniciar nossa preparação para o desfile em traje de gala. Como desta vez seria necessário mais tempo para nos aprontarmos, J. Carlos e Débora aproveitaram para apresentar à platéia um resumo geral dos resultados da gincana até aquele momento. Conforme previsto inicialmente, a Engenharia liderava com uma pequena margem. Nós estávamos em segundo, não muitos pontos atrás. Em seguida vinham as equipes da Medicina, Administração, Letras e Direito, todas muito próximas. Isto significava que precisávamos ganhar o concurso e a Engenharia não poderia ficar entre as três primeiras, se quiséssemos garantir nossa vitória. Sentada na cadeira do "camarim", Júlio preparava minha maquiagem retocando alguns detalhes e refazendo outros. Minha peruca foi substituída por uma parecida, a qual Júlio já havia fixado um arranjo de cabeça bastante brilhante e muito bonito. Calcei as sandálias pretas salto 12 e por fim o vestido de Roberta. Ao me olhar no espelho pude me certificar que todos os detalhes estavam completos,incluindo as bijuterias simulando diamantes que usaria. Eu mais uma vez me sentia linda.

Concentramo-nos atrás do palco enquanto aguardávamos o chamado dos apresentadores para iniciar o desfile.

E a vencedora é...

O desfile em trajes de gala foi chiquérrimo. Quem abriu a passarela foi novamente a Miss Administração, trajando um conjunto de saia preta longa em tafetá de seda acompanhado de uma blusa preta de mangas longas, toda bordada com lantejoulas brilhantes. Nos pés escarpins pretos de camurça. Apesar de estar até bem produzida, com uma maquiagem bem feita, podia se notar que o vestido estava um pouco justo demais, dando a entender que a verdadeira dona dele tinha um manequim menor que o seu. A Miss Engenharia, pela primeira vez, surgiu glamourosa e sem aquele ar caricato de antes. Vestia um longo azul marinho com sapatos idem, e desfilava com mais elegância do que nas etapas anteriores.

Eu me apresentei logo em seguida, e tinha a consciência de que minha produção estava muito boa. O vestido realçava bem as curvas que meu corpo possuía graças aos pneus, os seios artificiais e o espartilho. O arranjo de cabeça ficou lindo, e junto com a maquiagem de noite deixava meu rosto bem feminino. A única dificuldade eram aquelas sandálias de salto 12 agulha. Apesar de mais ou menos acostumada a elas, desfilar com a elegância de uma Miss ou Top Model é bem diferente do que simplesmente andar. Fazê-lo sorrindo e com naturalidade é ainda mais difícil. Isso me fez lembrar dos comentários da vendedora da loja de sapatos sobre as clientes que desistiam de comprar estas sandálias quando as experimentavam e percebiam que elas eram destinadas somente para mulheres que realmente dominavam a arte de andar de saltos. Acabou correndo tudo bem, sem tropeços e com muitas palmas da platéia.

A Miss Medicina fez uma apresentação surpreendentemente boa, de peruca loira e vestindo um lindo longo vermelho. Para combinar, usava longas unhas artificiais pintadas de um vermelho vibrante, mesma cor do batom. Calçava sapatos pretos bem altos, modelo de tiras em "T" (uma tira corria verticalmente no peito do pé unindo a tira do tornozelo com a parte do sapato que cobria os dedos). Estava super perua, mas bastante bonita.

A Miss Letras, devo admitir, estava deslumbrante. Seu vestido longo era todo bordado em lantejoulas, praticamente prateado. Como no desfile de maiô, seu corpo estava super curvilíneo e um grande decote em "V" nas costas a deixavam extremamente sensual. Suas sandálias stilettos possuiam finas tiras prateadas trançadas por sobre o peito do pé e ao redor do tornozelo, como uma deusa grega. Seus cabelos negros soltos e penteados emolduravam seu lindo rosto maquiado com perfeição, em tons vivos e brilhantes como quase todas nós. Para completar, mais uma vez demonstrou muita graça e elegância na passarela. Seria realmente uma adversária difícil. A Miss Direito desfilou com um simples vestido preto longo, calçando os mesmos escarpins de salto agulha que usara para o desfile em trajes típicos.

Quando todas nós estávamos em nossas posições, J. Carlos e Débora se posicionaram no centro do palco, enquanto as notas dos jurados eram recolhidas. Foram feitos agradecimentos a alguns patrocinadores do evento, e novamente o sistema de pontuação do concurso e a situação atual da gincana foram explicados ao público. Nós sabíamos que enquanto isso as notas eram somadas para decidir não só o concurso mas também a gincana. O público começava a manifestar sua preferência, havendo ruidosos grupos torcendo por suas representantes. Mas a grande torcida parecia se dividir mesmo entre eu e a Miss Letras. Devo confessar que a esta altura eu desejava imensamente ganhar aquele concurso, não só pela gincana mas também pelo orgulho de ser eleita Miss Gincana. Este final de semana havia mesmo mexido demais comigo, e admito que estava gostando de olhar no espelho e enxergar uma linda mulher no lugar daquele cara comum. Cada vez que eu me montava eu notava surgir uma sensação de relaxamento e prazer crescentes. Acho que começava a entender os transformistas, crossdressers, dragqueens e demais pessoas que sentiam prazer em vestir-se com roupas de mulher: não era só usar roupas femininas, era SENTIR-SE feminina. Como eu adorava a sensação de passar batom nos lábios, usar jóias, vestir saias e saltos altos... estes últimos então começavam a se transformar numa paixão, eu simplesmente adorava andar de saltos altíssimos, sentir todo o peso do meu corpo sendo jogado para a ponta dos pés, alongando minhas pernas e levantando meu bum-bum, ouvir o característico "click-clack" que faziam ao andar nos pisos mais duros. Nada é mais feminino do que isto. Envolto nestes pensamentos, mal percebi quando foi entregue um envelope a J. Carlos e Débora.

- Muito bem, senhoras e senhores! - anunciou J. Carlos - Durante este final de semana nossa cidade foi agitada por uma espetacular gincana envolvendo as diversas carreiras de nossa universidade, culminando neste magnífico concurso de Misses. Já temos em nossas mãos o resulta que definirá a ganhadora do concurso. Qual delas será eleita Miss Gincana? Qual faculdade será a vencedora?

- Anunciaremos a classificação final seguindo uma ordem decrescente, começando pela sexta colocada - disse Débora, para logo em seguida abrir o envelope com o resultado final - Em sexto lugar, a Miss Administração!

A Miss Administração saiu do seu lugar, conforme orientado previamente, e foi ao encontro dos dois apresentadores para receber um buquê de flores. O engraçado é que ela parecia mais aliviada [or ter tudo terminado do que propriamente triste por tirar a última colocação no concurso.

- Em quinto lugar, para receber as suas palmas, a Miss Engenharia! - anunciou Débora. No mesmo instante o grupo de torcedores da Engenharia manifestou o desagrado com a colocação de sua representante aos gritos de "É marmelada...É marmelada!". Com uma expressão meio constrangida, a Miss Engenharia recebeu as flores pela sua participação no concurso. Com o seu quinto lugar, a nossa chance de ganhar a gincana dependeria somente de eu vencer o concurso.

- Em quarto lugar, recebendo as palmas da platéia, a Miss Direito!

A Miss Direito, com um provavelmente falso ar indiferente, recebeu as flores que lhe cabiam pela quarta colocação. Também a galera torcendo pela Administração manifestou seu desagrado com um coro de vais e reclamações. Após solicitar silêncio ao auditório, Débora anunciou mais um resultado:

- Em terceiro lugar, recebendo o título e a faixa de 2a Princesa da Gincana, a Miss Medicina!

Apesar de sua colocação, a Miss Medicina parecia satisfeita com seu resultado. Sua torcida ameaçou alguns protestos que terminaram virando aplausos quando J. Carlos lhe colocou a faixa de 2a Princesa. Agora restávamos somente nós duas, eu e a Miss Letras. Não pudemos deixar de olhar uma para outra neste momento. Em poucos segundos saberíamos o resultado de horas e horas de intenso treinamento feminino. Só nós duas sabíamos a dificuldade de tentar em tão pouco tempo se transformar em mulheres bonitas, femininas e elegantes. A ansiedade chegava mesmo a causar um certo bolo no estômago, como um leve enjôo.

- Muito bem Senhoras e Senhores. Restam somente duas candidatas, e dentro em breve uma delas será eleita a Miss Gincana. Durante os últimos dois dias elas se prepararam para este momento, e com ajuda de seus colegas de faculdade se transformaram nas duas belas Misses que se encontram a sua frente. Miss Odontologia e Miss Letras... qual delas terá sido a escolhida pelos jurados, Débora?

- Exatamente isto, J. Carlos. Chegou o momento da decisão! Antes porém de anunciar o resultado, eu gostaria de parabenizar a todas as candidatas e suas faculdades por terem durante todo o concurso procurado representar tão bem e sem vulgaridade as profissionais do sexo feminino de suas carreiras. Eu tenho certeza que suas colegas estão muito orgulhosas de vocês. Parabéns garotas! - Débora parecia honesta neste seu comentário.

- E para registro da platéia, os jurados pediram que fosse divulgado que a sua decisão foi unânime. Em segundo lugar, recebendo o título de 1a princesa, a Miss Letras; em primeiro lugar e eleita Miss Gincana, a Miss Odontologia!

Eu não podia acreditar... eu havia ganho! Eu havia ganho! Uma onda de emoção tomou conta de mim, eu mal conseguia perceber o que ocorria a minha volta. Passavam pela minha cabeça imagens dos dois últimos dias, de todo o constrangimento inicial de minha estréia em público no shopping como Renata, a dança com Ricardo na festa e o quase beijo, o início de namoro com Roberta, as horas passadas em cima de saltos altíssimos até atingir o seu domínio, a depilação e tudo mais que eu havia passado para fazer de Renata a imagem de uma linda mulher. Com meus olhos marejados, pude perceber a Miss Letras vindo em minha direção para me abraçar e me desejar parabéns. Me lembro ter agradecido dizendo que ela também teria merecido a vitória. Débora e J. Carlos então se aproximaram, me vestiram uma capa vermelha e me colocaram uma tiara na cabeça e uma faixa sobre corpo onde se lia "MISS GINCANA". Tudo super simples, de algodão, plástico e strass; mas depois de tanto esforço para ganhá-los, aqueles acessórios tinham um significado muito especial para mim. Comecei então a desfilar para a platéia como a eleita Miss Gincana. Eu era a vencedora do concurso e minha faculdade a vencedora da gincana. A platéia quase toda me aplaudia, e eu podia observar um grupo de colegas da Odontologia fazendo o maior alvoroço. Emocionadíssima, tive certeza de que nunca mais esqueceria aquele momento.

Finda a premiação do concurso, regressamos para os bastidores para que J. Carlos e Débora pudessem dar início a divulgação final do resultado da gincana. Roberta, Patrícia e Júlio me esperavam para abraços e comemorações. Júlio e Roberta estavam verdadeiramente emocionados, chorando e abraçando-me sem parar. Pouco depois Júlio me confessaria que um de seus sonhos era o de participar de um concurso semelhante, mas nunca tivera oportunidade, e por isso se envolvera tanto com essa gincana. De Patrícia ganhei um afetuoso abraço, na verdade sua primeira grande demonstração de afeto desde o início da gincana. Ao meu ouvido ela cochichou algumas palavras que me lembro até hoje:

- Cuide bem de minha prima. Ela gosta muito de você.

Roberta por sua vez não se conteve e me beijou na frente de todos, prontamente correspondida. Saímos as duas de batom borrado e muito emocionadas.

De volta à nossa parte do camarim, começamos a guardar todas aquelas roupas, sapatos, acessórios e produtos de maquiagem. O resto da faculdade ia se aproximando para nos dar os parabéns e comemorar a vitória na gincana. Alguns de meus colegas ainda pareciam um pouco sem graça de me verem montada, mas nada que gerasse constrangimento. As meninas por sua vez eram super efusivas em seus cumprimentos, e não paravam de me perguntar como eu conseguia andar tão bem com aquelas sandálias de salto tão alto, qual o batom que eu usava, como eu fazia para maquiar meus olhos e outras perguntas tipicamente femininas. Roberta se mantinha o tempo todo abraçada a mim, e parecia um pouco enciumada da atenção que eu estava despertando nas garotas de nossa turma.

Ficou então combinada uma festa de comemoração na cobertura de Patrícia e Roberta. Saímos daquele ginásio com eu vestindo ainda as roupas do concurso. Ao chegarmos no apartamento das meninas, lembrei-me então que Dilma havia levado minhas roupas masculinas e só as traria amanhã de manhã. A solução era ir até minha república e apanhar algumas de minhas roupas. Ao comentar isto com Roberta, obtive uma resposta que já deveria ter imaginado:

- Você se incomoda de ficar mais uma noite vestida assim, Rê? Ninguém vai ligar, estão todos já acostumados. Se alguém estranhar, é so falar o que aconteceu com suas roupas e pronto. Além do mais, ninguém vai ficar te perturbando, não só porque você foi uma das principais responsáveis pela nossa vitória, mas também por que eu vou estar o tempo todo ao seu lado, bem produzida para que todos fiquem com inveja sua.

Como dizer não para ela? Acabei me montando para mais uma festa. Produzidérrima, usei um tubinho preto que Roberta me emprestou (como era prático uma namorada com praticamente as mesmas medidas) e calcei as minhas sandálias de salto acrílico transparente, deliciosamente altas. Foi uma festa e tanto...

E assim é Renata. Apaixonada por tudo que é feminino: maquiagem, principalmente se for um vermelhíssimo batom, mini-saia, vestidos, lingeries, e acima de tudo, sapatos e sandálias de salto altíssimo (e quanto mais alto e fino melhor). Do jeito que todas as mulheres deveriam ser.

Fim